1.º de Maio de 1982: contra a repressão, pela liberdade, pelas conquistas de Abril

29/04/2022
Poema "1.º de Maio 82". "Roda do Leme", n.º 1, Março/Abril de 1984, p. 16. CGTP-IN, S/139.

Há quarenta anos, o 1.º de Maio fazia-se de luto e de solidariedade. Dois trabalhadores foram assassinados e dezenas ficaram feridos em resultado da carga policial ocorrida no Porto, na noite de 30 de Abril e na madrugada do 1.º de Maio de 1982. Neste #cgtpmemoria, destacamos alguns documentos que evocam estes acontecimentos.

1.º de Maio de 1982: luto, solidariedade e protesto contra a repressão

A investida policial ocorreu quando os trabalhadores manifestavam a sua indignação contra a proibição, por parte do governador civil, de que a União dos Sindicatos do Porto/CGTP-IN festejasse o Dia Internacional dos Trabalhadores na praça Humberto Delgado, «[…] o mesmo local onde durante as condições do fascismo, sempre sob repressão, tal direito fora concretizado dezenas de vezes pelos trabalhadores da cidade, e onde foi realizado o 1.º de Maio de 1974 e seguintes, organizados pela CGTP-IN, depois do 25 de Abril.» (Nunes, 2016, 122).

As celebrações do 1.º de Maio desse ano, nas 64 cidades e localidades em que se realizaram, mas sobretudo no Porto, contaram com uma enorme adesão dos trabalhadores, que expressavam o seu luto e solidariedade com as vítimas da violência. Como forma de protesto contra a repressão exercida sobre os trabalhadores, a CGTP-IN convocou, neste mesmo dia, uma greve geral para 11 de Maio «[…] em defesa das liberdades, pela demissão do governo [que ocorreria a 9 de Junho de 1983], a dissolução da polícia de intervenção, a defesa das conquistas de Abril e contra o aumento do custo de vida […].» (Cartaxo, 2021, 159). Seria a segunda greve geral após o 25 de Abril, poucos meses após a primeira, realizada a 12 de Fevereiro de 1982.

1.º de Maio 82 - um poema em memória das vítimas

Em 1984, evocando os trágicos acontecimentos de Maio de 1982 e a memória das vítimas, a Comissão de Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, EP, publica, no seu boletim Roda do Leme de Março/Abril, o poema intitulado 1.º de Maio 82, cuja autoria não nos foi possível identificar:

1.º de Maio 82

Tal como no Inverno agreste…

Tal como no metralhar de uma guerra!

A voz de um operário em luta,

Foi agourar-se na disputa,

Do chão… de sua terra,

Marcado por cinquenta anos!

Viveu algemado, em penitência…

Seu dia foi ignorado,

Seu lema explorado,

Na rouquidão de uma inocência.

Abril, símbolo de um povo liberto

No despertar pelo Maio trabalhador.

Pelas algemas, pela tortura,

Lutaremos contra a clausura…

Gritaremos contra o explorador.

Polícia de intervenção… Assassinos!

Quiseram calar a voz do trabalho.

Mas, no agitar das nossas bandeiras,

Cerraremos fortes fileiras,

Contra o pestilento, e falso agasalho.

Pedro Vieira, Mário Gonçalves… Assassinados!

Sangue derramado na calçada Invicta.

Velhos, mulheres, crianças espancadas,

Olhares indignados… faces ensanguentadas,

Choram, gritam… FASCISTA!

Um dia, quando ignorado…

O 1.º de Maio será vingado!

PPS

Os versos têm por pano de fundo imagens dos funerais dos dois jovens assassinados pela polícia, nos quais, a 5 de Maio de 1982, participaram dezenas de milhares de trabalhadores.

No mesmo Roda do Leme, uma publicação que integra os fundos bibliográficos do Centro de Arquivo e Documentação (CAD) da CGTP-IN, renova-se o apelo à participação dos trabalhadores no 1.º de Maio e à necessidade de reforçar a luta em torno das suas reivindicações. Também nós, fazendo nossas as palavras de Zé do Malho, apelamos, nas vésperas de mais um 1.º de Maio, à participação de todas as trabalhadoras e de todos os trabalhadores neste que é um dia de celebração da dignidade no trabalho, da força dos trabalhadores unidos e solidários.

Ler mais...

CARTAXO, José Ernesto (2021) – CGTP-IN: 50 Anos de Luta com os Trabalhadores (1970-2010). 2.ª ed. Lisboa: CGTP-IN, pp. 124, 159-160.

NUNES, Américo (2016) – Contributos para a História do Movimento Operário e Sindical: 1977-1989. 1.ª ed. Lisboa: IBJC – Instituto Bento de Jesus Caraça; CGTP-IN – Departamento de Cultura e Tempos Livres, pp. 121-126.

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